Prece Vespertina
Pois que no começo fostes nada, Mundo e Deus, Perdoai com luz os meninos atormentados Que só amam com os olhos.
Que não é dos meninos Inteira a culpa.
Há que entender Da cor escura da carne atribulada, O marrom resistente da saudade, E o sufoco de uma natureza morta A emoldurar a refeição de sal: Pois que o gosto na garganta Desses meninos É aquele da flor da terra.
Perdoa, Quem só sabe amar com os olhos.
Para que no fim da tarde, Senhor, Possam teus meninos sequiosos, No crepúsculo agigantado do Amor, Encontrar o perdão e a paz do artista.
Escrito por Valente Martins às 13h21
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Do Exercício
De tanto se esconder, Envergonhar-se no banheiro De chorar, Aprendeu a sorrir sempre.
E foi feliz.
Ele, do contrário, estudava ser manhoso. Ele, que não tinha vontade de nada: fingia desejo e imediata frustração, projetando cuidadosamente um constante ar insatisfeito: ele, que não tinha vontade de nada. - Evito a fleuma, justificou. Aprendeu logo a reclamar sem motivo - ele, que não se incomodava com nada. Batia-lhe a falsa irritação, tão pronto expressava uma profunda ruga de desconforto, acompanhada de um gemido falseteado. A birra estilizada sem precedentes. Na imediata consequência de tornar-se profunda e verdadeiramente descontente não reside novidade. Não ter sido feliz é também de pouca relevância, pouquíssimos o são. Não obstante, vulgarizou-se na irritação, e aí reside todo o perigo de dissimular.
Escrito por Valente Martins às 22h26
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Do Relato Pobre (ensaio arrogante)
Permito-me apenas a prosa do difícil, do inexecutável. Para, portanto, no ensaio de exprimir o simples, reencontrar a falácia da linguagem: o dito inexprimível. (Só pelo complicado se diz a sensação de cor-de-rosa). O não-entendimento cria a ilusão de completude, ainda mais, a impressão do transcendental, da sobre-completude. É ponto pacífico - o significado só é belo quando transborda sobre si mesmo. Faço, por isso, questão do complicadíssimo. Nem que restrito às entrelinhas: o complicadíssimo é meu e necessário. * * * Samira, por exemplo, encontrara no silêncio, coitada, um pequeno tormento cotidiano, irredutível. Dada a clara sensação de que o silêncio permanecia, mesmo que em segundo plano, durante toda a sua fala, ela, pobre, desgarrava-se da obrigação de comunicar-se: Samira perdia o gosto da conversação. Dir-se-ia da vida. Não era a sazão da palavra, concluíra. Não obstante, ela nunca repudiara a possibilidade de uma existência elevada (cogitou o reino puro das idéias mudas). Mas tinha sim, infeliz, na obscuridade de suas frases fracas, empecilho agigantado. Não era a sazão da palavra, lamentara. Descobrisse nessa época a música, Samira primaverava. Não descobriu, reclamou muda, e ninguém ouviu. Samira, uma personagem simples, alegórica, carismática e melancólica. Quase uma estratégia comercial.
Escrito por Valente Martins às 18h25
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Soneto Equivocado
E como se não fosse tão errado Todo o teu quarto de doces inundas. Colhes as flores, as mais vagabundas, Para entregares ao ócio esperado.
Dedicas-te à saudade, sem que a tenhas. Lês dos livros, os mais inadequados. Pois só da saudade, livros, recados Da fila do descanso ganhas senha.
Mas se o projeto é ser ora assaltado De tremenda alegria ensandecida, Encontrarás só um corpo cansado,
E tendo a labuta como esquecida, Entornarás o leite condensado, Para fingir que não é doce a vida.
Escrito por Valente Martins às 23h15
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É o fim dos tempos.
Todo o mundo começou a se ligar, e são quilômetros de choro ao telefone. Decretaram fim dos namoros eternos, e agora cabe às moças que chorem. E vão chorar de condoer as entranhas da terra. Os homens vão beber as tristezas todas, vai ser a cachaça que Maria tomou para chorar à cruz. As mães lamentarão pelas desgraças dos filhos, e pelas desgraças dos pais, e as mães lamentarão eternamente a casa suja, a roupa muita. Nas festas, não haverá quem não procure afoito corpo para deitar em cima, gozar uma angústia fustigada, de comover as nuvens! Vão se entregar a um amor baixo, ciumento, corroído. Dá dó. As moças feias andam até desistindo de se embelezar: os espelhos não gostam. Vão procurar amigas bonitas para invejar - chorar as diferenças. As bonitinhas, ainda empetecadas, são aquelas que romperam, tentarão partir para o mundo imaturas, tristes de saberem dos morros, das pedras, das cercas, e o pior: dos caminhos abertos e sem obstáculos. Ainda andarão tanto caminho! E quem procurar ajuda, não vai encontrar. Os amigos estarão todos perdidos em suas desgraças próprias, e ninguém conseguirá se ajudar. As flores, enjoadas, vão murchar os espinhos e serão pura pétala. Os peixes, só esses continuarão nadando indiferentes do mar, desde o sempre comovidos.
Escrito por Valente Martins às 20h09
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Sobre o Infloríl Jardim da Maturidade
(em tempo de Bolero)
Se eu fosse jovem Quereria enterrar meus sonhos Num jardim recente.
Poderia então colher Flores de sofrimento Que já desconheço.
Escrito por Valente Martins às 02h00
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Carolina e a as Fúrias
Volta à prece:
meio sólido. meio devaneio.
Escrito por Valente Martins às 21h47
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Do Coito (divagação sobre as coxas abusivamente agitadas: sem paz.)
A escada acabou. Eu, que subi tanto. Comecei pulando de dois em dois degraus. Quando as pernas pesaram, esforcei-me contente do esforço: fortaleciam-me as coxas. Eu estaria eternamente preparado para o novo degrau, ainda que me doessem os dedos do pé, e depois os dedos da mão, porque tudo já me doía. Então subi a escada de quatro, apoiando por todos os lados: envergonhei-me da baixeza. Descansei, não descansei, continuei subindo, no meu passo dolorido, afoito da subida, embriagado da sensação de escada. Era tão curta a escada! Cheguei ao topo sem qualquer hematoma: só o Nada me latejava.
* * *
Agora, desencorajado, enfrento diante de mim a sensação de retidão, perversa. Lembro o tempo da escada atrás de mim, escada que por demasiada facilidade ao descer, faz-me cansaço. A subida é que me parecera pornográfica, violenta. A subida é que valia minha alma. Valia, valeria - não o foi. Foi subida reles, adversidade pouca. Diante da simplicidade estética de um corredor reto, um corredor sem portas, envergonho-me de tão empolgada escalada. Eu afetei o íngrime. Desafeto o caminhar plano. Sou apenas desgosto. Vergonha. Tenho, de mim, apenas o corpo triste.
Escrito por Valente Martins às 11h46
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Diagrama do Observador
De certo Há um charme discreto, contido, Na sem-graceza Dos meus olhos furta-cor.
Porque quando te olho Sou imenso Para caber em ti.
Tenho olhos de pontas dedos (e vou tatear tua garganta teu estômago e o sexo.)
Tenho olhos de pontas de pênis Para beliscar a tua moral.
Escrito por Valente Martins às 20h17
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Minha alma está com as unhas encravadas Mau-hálito e dor de dente. Minha alma está cheia de probleminhas chatos.
Feito um fardo, obesa pesa-me, Dá-me dor nas costas.
Escrito por Valente Martins às 18h49
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Periga chegar o tempo de eu escrever um novo Poema Pornô, idêntico ao primeiro, inexpressivo, e Incapacitado.
Escrito por Valente Martins às 20h38
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De quando nossos meses envelhecem.
Toda mesquinhez do homem seja salva. Senão, rapaz, minha amizade com você não valeu nada.
Escrito por Valente Martins às 04h29
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Des-Homem
Quero um corpo dodecafônico.
... e Seus Desejos Menores
Quero pisar no amor enchuvarado com meus sapatos limpos: até encaracolar a alma, asseada.
Quero o sono abusivo dos amantes. E a paz de uma alma arrítmica.
Escrito por Valente Martins às 00h57
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Banquete
Desbramar no calor-arroto da festa
O inho-pouco vinho quente
Que aos corações abraça.
— E fingir a vida.
Escrito por Valente Martins às 21h27
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Revólver, Martelo e Tiroteio
Pra ser mais que poesia.
Escrito por Josef K. às 00h40
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O Um
E me aflora o nada à alma D'universo de letras perdidas (idas e desistidas), assisto ao vasto negro repetir-se das horas ensaiadas. Sento-me nessa cadeira sobre o breu, desse universo marrom tão escuro e preto, e daqui releio, repito, reparto, envio - todas as cartas que um dia foram escritas e não enviadas. Tal como um guardião das desistências, alimento-me e enfarto-me dessas covardias, enfado-me.
E me aflora o nada à alma Ontem eu pensei em ti. Pensei em ti o dia inteiro. Desde ante-ontem, quando pela primeira vez te vi a ti, e viste-me a mim, e nos olhamos por entre as pessoas que passavam, e continuamos nos olhando inteiros, completos, com medo, completos. Desviamos os olhares, com medo, incertos. E não tornamos a nos olhar. Fiquei perdido. Indeciso, recortado, travei um dia de sorrisos e sem-gracesas, de amigos ignóbeis e sentimentos desajeitados, e vinha a revelia, e vinha o tédio, e logo estava eu, a olhar-te novamente, já não te vendo, já perdida a nossa oportunidade, a nossa vez de sermos felizes num mundo cinza. E tenho a impressão triste que tu me perdeste menos que eu perdi a ti. E então não te era mais o meu pensamento: reconstrui-te, num salpicar de nuvens rosas e roseiras secas, de livros, de céus, estrelas repetidas, repartidas e desenhandas num ventre nosso constelado. Uma gravidez de felicidade que não nos aconteceu - a alegria não se nos pariu. Agora penso a ti novamente, como foi ontem e ante-ontem, e como foi desde sempre o sempre: já apagado, já desistido, masturbado e embaçado de mim.
Escrito por Josef K. às 01h52
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Veneno Rosa
Porque meninos bonitos morrem.
Escrito por Josef K. às 00h52
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Diagrama do Observador
Tenho olhos de pontas de dedos. (E vou tatear sua garganta seu estômago e o sexo)
Escrito por Josef K. às 16h48
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Joana no meu corpo
Pra poder morrer em paz Pra poder morrer de rir
Escrito por Josef K. às 15h31
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Refrão Insone
Sua mãe sofre mais do que você E você não dorme.
Escrito por Josef K. às 05h39
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Ensaio Moral
Pensava em pegar o disk-man do colega. Porque ele o usava o tempo todo (a si e ao disk-man). E esquecera o colega a mochila aberta, fora ao banheiro, ninguém olhava. Une petite plaisanterie. Maldadezinha à toa. Chacota sem graça: devolveria o disk-man logo em seguida com cara de tacho. Mas, passado o furto, sem sorriso, o colega chegou com a pressa, catou a mochila e saiu apressado sob uma chuva fedida. E o herói dessa história ficou segurando um disk-man que, para evitar constrangimentos, jogou no rio enquanto voltava pra casa sob a mesma chuvinha inexpressiva.
Escrito por Josef K. às 22h42
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Dia feliz
Ela só precisou passar a mão no fundo dos cabelos, num gesto de carinho consigo mesma, pra perceber que estava tão triste.
Aí escreveu três ou quatro versos pra artificializar a sensação.
Escrito por Josef K. às 01h51
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Completude e Dissabor
Intimamente, ligo-me frouxo aos meus troféus-humanos, capengas, eu pedante - histérico. Desde quando me tornei essa busca desenfreada por olhos? Se nessa empreitada sou eu mais procura que reconhecimento, sou eu aí menos eu? Anula-me isso? O que perco de mim na boca, no corpo dos outros? Seja então minha vida um elogio à carne, ao fim das perguntas descartáveis (e pelas pessoas descartáveis), seja mais uma vez elogio à antipatia: pela sublimação-endeusamento da alma-objeto. Seja corpo inteiro o meu corpo pequeno, e sê-lo-ei por religião. Sê-lo-ei por obrigação, ciclicamente e promíscuo - completo.
Escrito por Josef K. às 18h45
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Dedicação II
escorrer até que preteje
Escrito por Josef K. às 02h25
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Antes da Virgindade
(nunca encontrei ninguém na escada que desce até lá)
Debaixo dessa escola há uma sauna, um balneário eneblinado, secreto. Lá vão todas as pessoas, em ritmo de sonho. Lá os meninos vão ficar pelados junto das meninas. Vão todos os alunos, pelo menos os bons de corpo, eles vão. Vão professores também. Da primeira vez que desci até lá, vi ao longe minha professora de literatura passar embrulhada numa toalha. Aqui em cima ninguém fala no subterrâneo paraíso vapóreo. Nunca foi citado por nenhum amigo meu, nem mesmo por mim (por isso ainda não sei como transpor as catracas). Não chega a ser desconfortável esse tabu, pelo contrário. É apenas uma coisa da qual não se fala. Subindo no último andar da escola, por trás da secretaria, há uma escada infinita que desce até o balneário. Logo ali, virando a parede, dá na escada, sem porta, sem ningúem que desautorize a descida. E descendo-se, chega-se logo no vapor, no branco dos azulejos, os armários onde guardar as roupas, chuveiros, mictórios e as catracas. (Da primeira vez que desci até lá, vi ao longe minha professora de literatura passar embrulhada numa toalha.) Porque depois das catracas é uma neblina espessa. Não sei ao certo o que há por lá, sei que há excitação, disso sente-se o cheiro. Mas da catraca ainda não passei. Vejo só as mulheres tirando a roupa como sempre tiraram, os homens mijando de pé, os olhares. Parecem sempre todos seguros, como quem há muito já conhece o gigantesco lugar e não tem medo do corpo e do vapor. Fico observando meus amigos indo e voltando, abraçados com meninas. Fico vendo a minha pequena: indo e vindo, abraçada com qualquer um. Fico vendo. Não falo com ninguém. E ninguém fala comigo.
Escrito por Josef K. às 13h48
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Superexposição
Pedir pra não publicar o mundo as flores
Escrito por Josef K. às 02h40
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Antes do Cigarro
- Posso te machucar? - Pode.
Escrito por Josef K. às 21h12
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O Hermético Pedante
Si vous comprenez ça Ça sera rien.
(presque rien)
Escrito por Josef K. às 12h22
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Criação
Deixa eu te explicar. Criar não é coisa que se faça por capricho. Longe disso. Quisera eu poder não criar. Fato é que é uma necessidade imperiosa, terrível, que faz gozar e brochar antes de ter gozado. É um sem-fim de quem consegue observar. Observa-se um pouco e aí vem essa necessidade estúpida. Eu não escrevo porque decidi escrever. Faço-o por obrigação.
Escrito por Josef K. às 00h47
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Artificial
Beijar marias-sem-vergonha Até que meu cabelo encaracole
Escrito por Josef K. às 16h13
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