Monólogo do Impostor
Sábado morno, entediante. Por ser sábado. E eu tenho planos. Esse sábado que me aguarde! Porque eu vou ler o dia todo, vou arranhar o piano até ter certeza do meu pouco talento, que não basta nem para as peças mais fáceis, mas eu vou continuar treinando, esse sábado a fora. E vou estudar, vou ler todos os livros. Escutar os cd's que tenho emprestado. Ouvir as músicas de todos os dias. E vou estudar. Vou contrariar meu sábado. Vou dormir durante o dia, e vou atravessar a noite rolando em páginas e canções surdas. Vou bater uma punheta. Vou traçar planos. Escreverei cartas. Escreverei para os meus melhores amigos. Não vou atender o telefone. Vou assistir três ou quatro filmes. Eu só disperdicei metade do dia, ele ainda é todo meu. Vou arremessar-me contra o sábado. Afundar-me no meu quarto, com as páginas brancas. Ressucitarei o romance. Escreverei. Muito. Produzirei. Já tenho as idéias, tudo o que eu precisava era de um sábado solitário como este. Tudo o que precisava era que meus amigos morressem, como morreram hoje. Precisava ficar abandonado, como planejei a semana toda. E vou adiantar minha vida. Recusarei os convites. Ignorarei as festas. Os prazeres. Por fim vai ficar o sol, depois ele se vai também. Fico eu. Nesse dia contrário. Preciso me vestir do avesso. Preciso pintar o cabelo. Bater mais uma punheta. E depois arrepender-me pela noite, por ter deixado de fazer tudo o que quis e que não quis. Arrenpender-me, e só.
Escrito por Josef K. às 14h59
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