É um mastigar sem fim.
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 porque tem que sempre estar bem
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Elogio à Antipatia


Festa (trecho de uma biografia apócrifa)

Ele era um moleque macambúzio, com aquele ar de criança mentirosa, meio caipira. Estava sempre enfurnado no seu canto, não gostava de falar. Mas falavam com ele. Ele respondia. Não entendiam.
- Quê?
E ele repetia. Não gostava de falar com ninguém, porque ninguém entendia. Todo mundo
- Quê?
E ele mesmo não conseguia repetir direito, aí é que enroscava e ficava parado.
Ficava sentadinho, no seu canto, com um copo de guaraná, com medo de todos aqueles parentes. Sentia saudade dos palhaços, gostava dos palhaços, mas tinha um pouco de medo. Agora todos aqueles parentes, aquelas pernas, e perguntavam
- E aí, rapaz? Tá moço, hein?
- Tenho sete anos.
- Oi?
E ele repetia mais baixinho. Todo mundo já sabia, ele tinha sete anos, tava na primeira séria, já sabia ler. Os tios gostavam dele, os primos também. Mas era ele que não gostava de ninguém. Ficava casmurro, emburrava, tinha vontade de fazer pirraça, mas era bom moleque e ficava quieto.
Não saía do seu canto. Era gostoso ficar ali sozinho, porque aí ele tinha sossego pra pensar. Pensava muita coisa. Pensava em briga, pensava em jogo de bola e já pensava também em sexo. Gostoso pensar. Gostoso pensar sozinho.
Aquele moleque não ia crescer tão cedo. Vai ter que sofrer a infância inteira. Vai sempre ter medo de gente e, mais tarde, quem sabe, vai amargurar-se por um espelho qualquer. Vai ser assim mesmo: amargo, torto.

Escrito por Josef K. às 20h43
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A Modelo

I will confess to you...

Durante o tempo todo, ela nunca teve dúvida de que era uma fraude. Sabia que cobria-se com maquiagem, que o cabelo era de outra cor e de outra textura. Sempre soube, nem teve dúvidas. Mas aquele dia era resolveu tirar uma foto da sua cama. Uma foto simples, em que ela não aparecesse. Então tirou fotos de tudo do seu quarto. Fotografou os próprios retratos, o chão, o lustre, a tevê. Desarrumou a cama. Jogou alguns retratos por cima, revirados. Foto. Talvez espalhasse os objetos todos pelo quarto. Ela queria livros! Consciente que era de sua própria mentira, ela lia compulsivamente Oscar Wilde. Arremessou o Retrato de Dorian Gray pela cama e pelos retratos. Foto.
.....................
Bobeiras...
Foi até o espelho, borrou-se e sorriu. Compulsivamente sorriu, orgulhosa de si.

Depois daquele dia ela continuou sendo a mesma. Gostava-se muito. Estava feliz consigo. Só não perdeu o hábito de fotografar o próprio quarto.

(N. do A.) Obrigado a minha amiga Paola, por ceder ao blog sua silhueta. Grande beijo.

Escrito por Josef K. às 21h52
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