Um Conto de Espelhos
Ele esperou o auge do sono pra fazer alguma coisa. Muitas horas sem dormir, muitas! Tivera já a euforia, tivera a depressão, viera a epifania, desmaiara, voltou a si normalmente. Mas ele ainda esperou muito, ficou horas parado. Sentiu o sono aproximar-se, segurou-se firme, pensou em erotismo. O sono marcava-lhe, já ficava difícil pensar. Decidiu pensar. Ficou instantes olhando pra um papel em branco. Não pensou em nada. Então, quando já era o limite do sono, os ombros doíam, as pernas moles, o sono mesmo... Foi então que ele decidiu fazer alguma coisa. Resolveu ter uma atitude. Desejou uma pequena dose de adrenalina que o tirasse do torpor, mas não veio, continuou com sono mesmo. Sabia então que era o momento ideal para o que queria. Sentado, a luz do quarto acesa, ele pensou na vida, repassou o seu dia, criou amores, ciúmes, prazeres, tudo muito rápido, tudo muito turvo... Percebeu que os sentimentos todos que tivera eram mentira. O que ele tinha era o sono. Desde o começo.
Escrito por Josef K. às 00h40
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"Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes."
(Graciliano Ramos, S. Bernardo)
Escrito por Josef K. às 22h46
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