Da Caminhada Silenciosa
Foram andando calmamente, simples calma, foram andando... as duas amigas, tristes, reconditas puras, pudicas, fizeram escárnio do acontecido, contaram bobagem, tomaram bebida, falaram palavrão, se riram, amolaram a faca, fizeram festa. Foi andando que as palavras corriam, as duas, sem calma. O passo mais pressa de uma, o passo corrido da outra, as palavras se iam. Ah, as duas amigas, tristes, escondidas, incautas, maculadas e lindas, as duas amigas andavam uma ao lado da outra, faziam-se assim, cresciam-se assim, puras, contando bobagem, puras como um palavrão na boca da criança inculta. Uma da outra, se distinguiam, eram sóbrias, eram sôfregas, da vida, tinham contado mil histórias, da infância, da adolescência, da velhice, da maturidade, da vida de adulta das duas, contaram tanta coisa, falaram tanta palavra, que o passo apressava, as duas amigas andavam. Ziguezagueando, as duas se iam, amando o sórdido da beatitude, erotizando os romances cavaleirescos de um tempo, tempo que não era seus, tempos tempos tempo, uma medida de passo, cronômetro do ritmo que as duas amigas caminhavam. No passo certeiro, uma disse - Eu viro aqui. - Eu também. E viraram pra esquerda, pra direita; em silêncio as duas amigas.
Escrito por Josef K. às 17h37
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