
Persistência
Fazia tempo que ele sonhava com dentes. Começou realmente a se preocupar com aquilo, sonhava que eles estavam moles, as pessoas puxavam. Não, eles não caíam, mas iam amolecendo, as pessoas puxando, ele os reivindicando como seus. Depois de acordar, sentia alívio, sentia dor no maxilar, de tanto apertar, mas os dentes estavam ali, e ele apertava mais forte a boca, queria a boca completa, a língua dorida de tanto correr pra se certificar. No outro dia sonhava de novo. Sonhava com vômito, sonhava com catarata; mas o que lhe doía eram os dentes, preocupava-o mesmo. Sonhou com dentes pontiagudos por baixo da cama, pensou em tirá-los de lá e pôr em baixo do travesseiro. Mas se um dia um dente seu caísse, ele colocaria num colar, tivesse talvez um colar cheio deles. Um dente em especial. Ele amolecia demais. Então quando acordava, a língua estava já ali, pra se certificar dele. Ignorou a ferida na ponta da língua. E apertava demais, o maxilar, com muita força, ter certeza de todos ali.
Foi então que ele descobriu. Acordado, conferisse mais forte, de apertar, os dentes já começavam a amolecer.
Escrito por Josef K. às 00h42
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|