Alguém me chamou pelo nome.
Será que sabem meu nome, será que sabem? Foi durante a noite que meu ego se abriu e eu caí feito mochila velha dentro da minha Vaidade. Fiz-me títere de mim mesmo, perdi o controle, Deus do céu. Agora eu estou repetindo a velha história, a velha, verdadeira, e toda torta história, bem do jeito que só eu sei contar. No fim, vai ficar todo mundo sabendo. Que eu odeio tudo, que eu odeio quando me chamam pelo nome, que não estou mais suportando o meu bom humor. Vai implodir, ah vai. Tem formigas trabalhando pra isso. Ah, o Amor, o Amor, o Amor... Tem que tomar cuidado, viver é negócio perigoso. Ainda mais quando tem gente chamando a gente pelo nome, cutucando a fechadura e ligando o gás do fogão. Negócio dos mais complicados.
Esqueci de avisar, é isto uma carta, daquelas tantas sem vocativo. Dedicada à minha paixão, ao meu amor e ao meu espelho, que é desse tripé que eu estou a cair.
Mas é que no fundo eu sou um monstro, dos mais bonitos e maquiados que já fizeram. (se alguém me visse agora, passaria reto, ia talvez ler a camiseta - todo mundo lê - e aí passar reto, e nem saberiam que sou eu aquele que no dia anterior tinha chamado tanta atenção: gosto de passar feito lixo vez ou outra)
deixa o resto da carta. ia precisar de um vocativo. está me preocupando esse banquinho torto e o fato de ninguém estar me chamando pelo nome. (ao vocativo: pelo amor de Deus, eu espero a tua resposta, espero sim. eu preciso dizer duas ou três coisas, você vai me entender)
Escrito por Josef K. às 15h50
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