Carta para uma pessoa triste:
Senta aqui, vamos conversar com seriedade. Discutir os seus problemas profundos, essa sua vontade de não ter vontade alguma, sua rejeição às ocupações. Chega aqui, saudade do que você tem? Que saudade é essa, insuportável? Mania de ficar parado sentindo brisas, a leveza da alma, melancolia nos olhos. Vamos conversar seriamente. O que eu proponho é que você se apaixone por mim. Deixe eu lhe explicar todas as vantagens (devo também ressaltar os contratempos), mas o que você precisa mesmo é se apaixonar por mim. Infelizmente não corresponderei assim logo de início, não é esse mesmo o nosso objetivo, o que precisa acontecer é você sair desse buraco branco. Começando: pára de beber leite, isso dá sensação vazia por dentro. Não comece a fumar, também dá vazio por dentro. Repudie esse vácuo, não lhe cai bem, o que você precisa é de mais maquiagem, um pouco mais de exagero. Vou ensinar a pentear o cabelo, a dançar discreto e bem. No entanto não seja de todo fútil, que assim não vou suportá-lo, eu também tenho os meus critérios e rigores. Quanto a este pormenor, não se preocupe com minhas recusas, elas serão constantes, e você há-de se acostumar. Teremos amigos. Você me apresenta como cônjuge a uns, demonstra amizade a outros, e continuamos assim, sem que nunca você perca sua paixão por mim. Essa paixão sim é obrigatória, irrecusável. Sem ela eu faço questão de você não existir.
Escrito por Josef K. às 23h42
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