Memórias Selecionadas (de modo a me fazer parecer alguém melhor)
Minha memória mais antiga é um quintal de terra, cercado por uma cerca de bambu, o rio Jaguari correndo do outro lado, e logo na minha frente um degrau, uma porta, que dava pra casa antiga da minha avó. A imagem desse degrau está misteriosamente fotografada pra mim, talvez seja a imagem mais antiga que consegui captar. A casa tinha um porão escuro, mal-assombrado. No quintal, os pés das coisas, jabuticabeira, galinhas, e numa cerquinha um peru revoltadíssimo. A casa tinha dois grandes perigos: o porão mal-assombrado e o peru. Gente, isso deve de ser da época em que eu aprendia a andar. Aquela jabuticabeira era um colosso! E o peru, um assassino...
Minha memória mais triste é da estrada, o céu todo estrelado, e eu olhando, de dentro do carro, todo impotente diante daquele infinito todo. Diziam os antigos "Não olha muito pro céu. Tentar entender o céu deixa louco", e eu ali, dentro do carro, e todo aquele céu, sem conseguir pensar em outra coisa senão no fim do mundo.
Meu sonho mais antigo data da mesma época em que eu aprendia a andar. Fuçei atrás das portas e encontrei esqueletos. Atrás de todas as portas, só o que havia era esqueletos. Tentei avisar meus pais, mas eles estavam parados vendo televisão, e nada desviava o olhar deles daquela tela em branco e preto. Deve ter sido minha primeira aflição.
Minha maior decepção foi ter achado uma vez que minha mãe tinha comprado um video game, e escondera pra me dar de surpresa. Sem dizer nada, eu procurei pela casa toda, em cada canto possível de caber um video game. Depois, desesperado, pressionei-a a dizer qual era o esconderijo. Não havia. Não tinha video game nenhum. Lembro que eu chorei amargamente.
O meu maior tédio durou em torno de oito anos. Vou procurar o guinness. Certamente ninguém sofreu tédio por tanto tempo assim.
Escrito por Josef K. às 14h27
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Sentimento de Responsabilidade
Como se eu fosse toda a cãibra do mundo
Escrito por Josef K. às 12h51
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Mais Um de Instante Dissecado
Distorção. Malabares arremessos, um último rodopio antes de aceitar o telefone. Está ali anotadinho o número, meio rabiscado (todos os números bem legíveis), está ali o aparelho, o fone, o gancho, as teclas, o fio. Ensaia um número qualquer com o fone ainda pousado (uma música, outra música), ensaia o número anotado, digita um dois três seis nove oito sete quatro um, repara que faltou o cinco, aperta o cinco muitas vezes, tira o fone do ganho, repara no som do cinco, e então, pela última vez, sente preguiça, seria este o argumento final, a pura preguiça, a vontade-de-não. Mas foi forte, discou o número anotado. Discado, não havia mais o que fazer. Verificou se a voz estava limpa (estava), pensou no que iria dizer - e rapidamente afastou a idéia da cabeça, isso sempre atrapalha. O fone não dava nenhum sinal, esperou: às vezes demora. Sinal de ocupado, por fim. Apertou a rediscagem - ocupado. Denovo. Denovo. Denovo. O longo silêncio e a cadência caía como um tum tum ocupado, como um não-não-não-não-não... Denovo. Denovo, denovo e denovo. Acostumou-se à idéia daquilo, àquela segurança. Tinha o dever cumprido: ligara, e repetira a experiência em vão, não havia nada que podia ser feito, aceitemos a realidade do não-não-não. Mas incansável, continuava tentando (divertia-se). Denovo ocupado, denovo e denovo. Caminhou pela sala de novo, como o fizera antes se sentar ao telefone. Lavou as louças, ouviu uma música, e resolveu ir-se embora de casa. Mas por uma última vez, seja por consciência, seja por pirraça, foi outra vez cutucar o não-não-não. Rediscou número a número, pensou que talvez errasse, então discou novamente com mais atenção. O silêncio era o mesmo. Ia ser o sinal de ocupado..., mas não vinha nunca, ficava só o silêncio na linha. E então veio o primeiro Não. E depois o segundo. E o terceiro. E o espaço entre eles não mentia, o telefone estava chamando. Sem conseguir pensar em nada, resignou-se e continuou esperando enquanto o destino lhe fazia o tum. Tum. tum. E era uma espera sem tamanho. Cancelou - certamente errara o número. Discou. O silêncio. E depois os espaçados sinais de Não. Foram quatro advertências até que seu coração parasse estarrecido, desesperado do estampido distante, desfragmentado arremessado sem música por entre a insipidez intrínsica de uma voz conhecida, habitual, ignotamente acostumada e com sono, que, para o horror do mundo, naquele momento disse -Alô.
Escrito por Josef K. às 20h57
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