Diálogo (um pequeno estudo sobre o pedantismo)
- Qual é sua força motriz? - perguntou ela, enquanto olhavam para o teto. - Como assim? - O que te empurra a vida pra frente? O que te mantém vivo? - Não sei. Eu sou bonito, sou até bastante inteligente, tenho alguém que me ama. E eu me alimento bem. - Você tem vontade de continuar? Digo, apesar de ser empurrado pra frente pelas coisas que você disse, você tem mesmo vontade de continuar a vida? - Assim, de sopetão, eu diria que tenho sim. Não conheço ninguém que renunciaria a vida dessa maneira. Mas a maior parte do tempo eu não me preocupo com isso, nem me lembro de estar vivo. E acho isso bastante natural. - De fato. - Acho que vontade de viver é algo involuntário. Não existe força motriz. - Era nesse ponto que eu queria chegar. Mas quero que você chegue nele pra mim. - Como eu devo continuar? - Você disse que é intrínseca a vontade de viver. - Disse que era involuntária. - Suponha que é intrínsica. Pausa. Ele cutucou as unhas por baixo e depois arregalou os olhos. - E o suicídio? - É esse o ponto que eu quero que você chegue. Ele apertou a boca, olhou longe (como que experimentando a janela, olhando um caminho percorrido até o chão). - Então não existem suicidas! Existe assassinato. O sujeito é assassinado por si mesmo. A despeito de sua própria vontade. E os dois se olharam sorrindo: geniais!
Escrito por Josef K. às 22h41
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