A Maior Felicidade
O maridinho bobo e a mulherzinha chata. Ele dá um sorrisinho pequeno, fascinado, ela arregaça os dentes - lentamente - sabendo que é sensual. Ela é mesmo muito sensual, ele nem se conforma, fica nesse sorrisinho mínimo, olhos brilhando como se tivesse lombriga. Vão ter uma porrada de filhos os infelizes, vão fazer com gosto, porque ela é muito bonita, ele é um pouco feio, mas ela não liga, não liga não. Farão com gosto, depois ele vai lhe beijar a barriga pensando no pirralho. Casal deveras neurótico, sofredor, uma coita só.
***
Ela olhando pela janela da cozinha, nefelibata. Ele trazendo deliciosos manjares, devoto. Vão servir-se do resto do mundo, jantarão as ruas e os amigos, mastigando o sem-fim da vida. E quando restarem-se a si mesmos unicamente, vão chorar por uma briga boba, e amarão superficialmente com o amor dos homens.
Escrito por Josef K. às 19h26
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Escrita Menor
Eu pratico uma literatura dolorida, de desalinho. É uma literatura ruim, mas é só o que eu sei fazer. E enquanto a amante imaginária fica deitada na cama, levanto-me e sento-me à escrivaninha: não importa que ela seja maior que eu, que seja mais inteligente, que tenha o dom de dormir enquanto eu aqui sofro. Sento-me (a despeito de seu desprezo). E pratico a minha literatura.
(Literatura pornográfica da melhor categoria, com saídas para o existencialismo, masturbação, suicídio e poesia. Palavras de amor e de ócio, o puro tédio noturno, e todos os pensamentos mirabolantes de uma noite não dormida. Palavras de amor entrando pelos cotovelos, descento até o ventre , dormindo os pés. Literatura muito fácil, leitura de prostitutas, michês e concubinas mal-instruídas. Super fantástico, maravilhoso, o gozo forte daquele de repuxar o corpo todo, dar ponta-pés, soco com os ombros, careta de regozijo. É essa a imagem principal: a careta de regozijo.)
- Que seja dor. Eu sou tão pequeno, eu sou tão pouco. Mas tenho uma alma grande que não cabe em mim, e sofro. As vezes a vejo escorrendo por debaixo das unhas do meu pé, me saltando pelos olhos a fora, ocupando um espaço inteiro. Fico com esse desejo monstruoso de me expandir, até me tornar uma foto. Quero crescer até ser uma máquina - alma pura, mecânica - sem nenhuma humanidade que me limite.
Escrito por Josef K. às 02h30
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