Questionamento Sobre a Identidade nº1
Perguntei-me, assim, sem premissa, se não estaria eu vivendo a vida de outro. Olhei ao redor, notei o que estava fazendo (ora, que ação menos pessoal - estava eu lavando a louça suja), e refleti sobre até que ponto eu não tinha usurpado aquela vida. Todas as situações, toda minha memória, seria isso bagagem de outro? Deveria ser de outro? Ando estranhando alguma coisa.
Questionamento Sobre a Identidade nº2
Reparei que sou, ao menos, distintamente dois. Qual de mim você conhece? O eu-engenheiro, cansado, de alguma forma reprimido pelo ar, mas ainda assim promíscuo, ou com uma vontade de promiscuidade eterna, que anda por aí de ombros travados, e com olhos desavergonhados procurando alguma sensação fortíssima que o tire do corpo. Ou o eu-artista, moral, centrado em si, criador de desesperos, de olhar aguçado (ando por aí caçando angústias, sujeiras de comunicação e outras humanidades), capaz de tudo, que já viveu o mundo quatro vezes e não sente preguiça de viver de novo. Escuta, qual dos dois te beijou? (Acho ainda que sou um terceiro de mim. Um terceiro que - meu Deus, que saudade - que eu perdi por aí enquanto crescia dando bola pros dois de mim que de fato valiam alguma coisa.) Quando eu nasci, eu nasci e nasci. Faço questão de deixar isso claro.
Questionamento Sobre a Identidade nº3
Continuo com a clara sensação de que estou roubando a vida de outrem. De quem? Dos outros de mim-mesmo? Uma vez consegui contar sete de mim mesmo, e aí eu chorei - não entendo porque, pensar nisso me dá uma agonia (estou sentindo agora mesmo!), uma agonia enorme, uma vontade de chorar... - isso é culpa?
Questionamento Sobre a Identidade nº4
Quando olho pra dentro de mim vejo cores insolúveis entre si. Pergunto-me como é que eu ainda não explodi.
Voz, RESPOSTA
- Ninguém não explode, meu caro. O que é um, é outro; o homem não tem tanto dom de se distinguir. Dá tudo na mesma. O que você sofre aqui, outro sofre acolá. Ninguém não é novidade. Quem se questiona demais, faz por vício, pra fugir da tarefa labuta-diária, faz pela mesquinhez mundana de precisar sempre do verbo. Olha pro espelho. Olha bem. Faz careta, arregaça a língua pra frente, tira a roupa e bate uma punheta. É isso o que você é, pessoa. Disso você não passa.
Escrito por Josef K. às 04h27
[ envie esta mensagem ]
|