Da Passagem
- Herege! Então o menino de cabelos coloridos entrou no quarto azul. Já é sabido da lenda: é no quarto azul que a Mulher espera, aberta, o jovem virgem garoto colorido. Espera como quem sabe que espera, e faz de toda sua vida um esperar inteiro; e agora que ele abria a porta (azul, o quarto), o quarto lhe ganhava um ciano vivo. O menino colorido, de todas as cores que seu cabelo tinha, dava passos (ouvia-se) e a Mulher o esperava. O pobre delicado menino colorido, maravilhoso na sua delicadeza infantil e no seu talento inesgotável ainda oculto, o então tão colorido menino deslizava, vibrando o azul daquelas paredes apertadas. Como cego, ele não a via. "Onde está?" - perguntou, na sua voz rouca (e delicada) que ele tinha. "Alhures", respondeu a voz sarcástica e estúpida da Mulher. O menino colorido tateou o escuro que lhe era o monocromatismo e não encontrou corpo. Ele era todo cores. Amável, ele sorriu da brincadeira. A Mulher, que era em si toda espera, impaciente, impacientou-se: derradeira. Porque todo aquele azul solitário não merecia tantas cores. E nesse dia ninguém se conheceu. - Caprichosa - atacou-a. - Quando é preciso se fazer. - respondeu a Mulher, adultíssima. E então o menino saiu revolto do quarto azul. Bateu com força a porta, trancando ali o que havia de amargo, e descobriu lá fora o espelho (porque ele era colorido, e porque ele era lindo), e soube que poderia ter qualquer mulher do mundo. Qualquer mulher que ele quisesse, e nenhuma lhe seria amarga. Porque o que havia de amargo (e de mágico) num monocromatismo não seu ele encerrara.
Escrito por Josef K. às 22h44
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