Espaço Vazio (criação artística de ímpeto; mas com familiaridade)
- Que seja um ensaio sobre o bom gosto. Do gosto das coisas, dos relacionamentos, dos sabores viciantes e das calçadas.
Ela andava pela rua feito quem vaga. Vagava. Em contra-ponto, os ônibus, e ela: virgem. Virgem do mundo e "promíscua de si mesma" ela diria, conversando mentalmente com um diamente que era seu príncipe encantando. Ela vivia andando, vaga. De objetivo a objetivo - chegava, desfazia-o; e então era mais um caminho. E daí ela disparavatava tanto que pegava um taxi, comprava uma pipoca ou chorava. Era assim, basicamente. Quando alguém escrevesse sua biografia, falaria dos pontos objetos: onde ela esteve parada, cumpriu, viveu. Mas para ela, que erro dela!, ela não via nada. A vida, nela, pra si mesma, era esse caminho entre isso e aquilo. Entre uma vaga e outra - quando aprendeu a pedir carona pros carros. "Caronas dão a experiência constrangedora por si só" - repetia - "é o constrangimento que constrói o homem. Edifica-o". Ela, no fim, é uma perfeita - executa, traduz e distingue. Mas pra que não pensem, leitores, que ela era doida vadiante: ela tinha seus objetivos simples e cotidianos, tinha os papéis de parede pra colar pela casa, e o cartão de crédito cheque fatura (papel de cor pastel, ela preferia. "casas sóbrias, em tons pastéis" é o que ela pregava). E quando se punha a andar de novo, eram as paredes, as compras, a avó terminal, o trabalho da pós, o rapaz lindo na esquina, que olha, não olha, disfarça, olha pra mim, que eu olho de novo pra você, a gente vai passar reto dessa vez, de outra vez, quem sabe, a gente tenha a chance de se parar, de se conversar, de se olhar mais que duas três vezes, me responde, se eu olhar bem forte agora, você foge comigo? mas me olha ao menos, me olha inteira, interessado, que sem interesse seu também não me hei-de. Orgulho, na esquina, não lhe falta. E depois ela repensa: "Bom mesmo é a diversão do olhar desajeitado. Não fosse isso, não prestava". E dessas caminhadas não sobra nada especial. Sério.
Escrito por Josef K. às 05h54
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