Luiza está equivocada. Caminha para escola debaixo do cinza, está atrasada, está lenta, está triste, resignada, mas de nariz erguido, enfrentando o ar - suas preocupações fazem tudo parecer trivial. O que ela quer: - quer ser gostada, amada, traída uma vez na vida, quer experimentar todos os vinhos e todos os queijos, quer um príncipe encantado, quer um grande problema pra lidar, um câncer, quer ser fotogênica, quer ter mais amigos, ter menos conhecidos, mudar de país, conhecer Paris, je t'aime mon amour, soit à moi, je serai pour toi et alors, je volerai ton coeur et je serai le voleur de ta vie quer que as estátuas sumam do mundo (ela não gosta de estátuas), quer que as pessoas pelas ruas sejam mais bonitas, ela mesma quer ser mais bonita, e quer uma menina mulher femme fatale inocente linda de olhos azuis e peitos grandes pra beijar sem compromisso.
Mariana está fugindo da lei. Da lei, da mãe, do pai, do professor de sociologia, da faxineira, do terapeuta, do irmão mais novo, do mendigo que lhe pede abraços, do último Ricardo musculoso e razoavelmente inteligente que conquistou seu coração, das aulas de alemão, tem evitado ônibus, taxis, andar a pé e ficar em casa.
Luiza está miseravelmente enganada no que tange o sentido da vida. Quer ser atriz e personagem de si mesma. Escreveu "O ator tem que se desgostar intimamente. Não fosse assim, teria pouco prazer ao se desfazer de sua vaidade, de suas unhas, seu pudor e seu hálito." Queria, portanto, ser atriz da vida e personagem de si mesma. Mas enquanto Luiza caminha pra escola debaixo do cinza, ah, despreocupa-se tanto. Com sua mochila, seu caminho pela frente, seus quereres e ânsias, ela tem mais nojo do chão e do céu que das coisas da alma. Ela não vê: personagem de si mesma, do desejo, o desejo a trai.
Mariana tinha um escravo seu. - Fotografa-me. E então o puxa pelo colarinho, deita-o na cama e despe-se. "Fire walk with me, baby". E faz todo seu ritual (enquanto pela manhã as pessoas sentem cheiro de mofo), sua pequena cerimônia de felicidade, bondage, pênis, pele e as mãos que apertam seus seios e ela gosta tanto. E vai acordando, e, já fora dos seus anseios pessoais sempre realizados, Mariana é inalcansável, recatada na indiferença e na perversão. Aqui, no átimo antes do gozo, ela é a pessoa que sempre quis ser.
- Você é bonita. - diz Mariana - Pode me beijar se quiser. ...mas Luiza não consegue disfarçar o pudor quando (nunca estará a vontade), enquanto Mariana a despe, descobre sobre a pele sua marca de nascença.
Escrito por Josef K. às 23h38
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