Antes da Virgindade
(nunca encontrei ninguém na escada que desce até lá)
Debaixo dessa escola há uma sauna, um balneário eneblinado, secreto. Lá vão todas as pessoas, em ritmo de sonho. Lá os meninos vão ficar pelados junto das meninas. Vão todos os alunos, pelo menos os bons de corpo, eles vão. Vão professores também. Da primeira vez que desci até lá, vi ao longe minha professora de literatura passar embrulhada numa toalha. Aqui em cima ninguém fala no subterrâneo paraíso vapóreo. Nunca foi citado por nenhum amigo meu, nem mesmo por mim (por isso ainda não sei como transpor as catracas). Não chega a ser desconfortável esse tabu, pelo contrário. É apenas uma coisa da qual não se fala. Subindo no último andar da escola, por trás da secretaria, há uma escada infinita que desce até o balneário. Logo ali, virando a parede, dá na escada, sem porta, sem ningúem que desautorize a descida. E descendo-se, chega-se logo no vapor, no branco dos azulejos, os armários onde guardar as roupas, chuveiros, mictórios e as catracas. (Da primeira vez que desci até lá, vi ao longe minha professora de literatura passar embrulhada numa toalha.) Porque depois das catracas é uma neblina espessa. Não sei ao certo o que há por lá, sei que há excitação, disso sente-se o cheiro. Mas da catraca ainda não passei. Vejo só as mulheres tirando a roupa como sempre tiraram, os homens mijando de pé, os olhares. Parecem sempre todos seguros, como quem há muito já conhece o gigantesco lugar e não tem medo do corpo e do vapor. Fico observando meus amigos indo e voltando, abraçados com meninas. Fico vendo a minha pequena: indo e vindo, abraçada com qualquer um. Fico vendo. Não falo com ninguém. E ninguém fala comigo.
Escrito por Josef K. às 13h48
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