O Um
E me aflora o nada à alma D'universo de letras perdidas (idas e desistidas), assisto ao vasto negro repetir-se das horas ensaiadas. Sento-me nessa cadeira sobre o breu, desse universo marrom tão escuro e preto, e daqui releio, repito, reparto, envio - todas as cartas que um dia foram escritas e não enviadas. Tal como um guardião das desistências, alimento-me e enfarto-me dessas covardias, enfado-me.
E me aflora o nada à alma Ontem eu pensei em ti. Pensei em ti o dia inteiro. Desde ante-ontem, quando pela primeira vez te vi a ti, e viste-me a mim, e nos olhamos por entre as pessoas que passavam, e continuamos nos olhando inteiros, completos, com medo, completos. Desviamos os olhares, com medo, incertos. E não tornamos a nos olhar. Fiquei perdido. Indeciso, recortado, travei um dia de sorrisos e sem-gracesas, de amigos ignóbeis e sentimentos desajeitados, e vinha a revelia, e vinha o tédio, e logo estava eu, a olhar-te novamente, já não te vendo, já perdida a nossa oportunidade, a nossa vez de sermos felizes num mundo cinza. E tenho a impressão triste que tu me perdeste menos que eu perdi a ti. E então não te era mais o meu pensamento: reconstrui-te, num salpicar de nuvens rosas e roseiras secas, de livros, de céus, estrelas repetidas, repartidas e desenhandas num ventre nosso constelado. Uma gravidez de felicidade que não nos aconteceu - a alegria não se nos pariu. Agora penso a ti novamente, como foi ontem e ante-ontem, e como foi desde sempre o sempre: já apagado, já desistido, masturbado e embaçado de mim.
Escrito por Josef K. às 01h52
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