Do Coito (divagação sobre as coxas abusivamente agitadas: sem paz.)
A escada acabou. Eu, que subi tanto. Comecei pulando de dois em dois degraus. Quando as pernas pesaram, esforcei-me contente do esforço: fortaleciam-me as coxas. Eu estaria eternamente preparado para o novo degrau, ainda que me doessem os dedos do pé, e depois os dedos da mão, porque tudo já me doía. Então subi a escada de quatro, apoiando por todos os lados: envergonhei-me da baixeza. Descansei, não descansei, continuei subindo, no meu passo dolorido, afoito da subida, embriagado da sensação de escada. Era tão curta a escada! Cheguei ao topo sem qualquer hematoma: só o Nada me latejava.
* * *
Agora, desencorajado, enfrento diante de mim a sensação de retidão, perversa. Lembro o tempo da escada atrás de mim, escada que por demasiada facilidade ao descer, faz-me cansaço. A subida é que me parecera pornográfica, violenta. A subida é que valia minha alma. Valia, valeria - não o foi. Foi subida reles, adversidade pouca. Diante da simplicidade estética de um corredor reto, um corredor sem portas, envergonho-me de tão empolgada escalada. Eu afetei o íngrime. Desafeto o caminhar plano. Sou apenas desgosto. Vergonha. Tenho, de mim, apenas o corpo triste.
Escrito por Valente Martins às 11h46
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