É o fim dos tempos.
Todo o mundo começou a se ligar, e são quilômetros de choro ao telefone. Decretaram fim dos namoros eternos, e agora cabe às moças que chorem. E vão chorar de condoer as entranhas da terra. Os homens vão beber as tristezas todas, vai ser a cachaça que Maria tomou para chorar à cruz. As mães lamentarão pelas desgraças dos filhos, e pelas desgraças dos pais, e as mães lamentarão eternamente a casa suja, a roupa muita. Nas festas, não haverá quem não procure afoito corpo para deitar em cima, gozar uma angústia fustigada, de comover as nuvens! Vão se entregar a um amor baixo, ciumento, corroído. Dá dó. As moças feias andam até desistindo de se embelezar: os espelhos não gostam. Vão procurar amigas bonitas para invejar - chorar as diferenças. As bonitinhas, ainda empetecadas, são aquelas que romperam, tentarão partir para o mundo imaturas, tristes de saberem dos morros, das pedras, das cercas, e o pior: dos caminhos abertos e sem obstáculos. Ainda andarão tanto caminho! E quem procurar ajuda, não vai encontrar. Os amigos estarão todos perdidos em suas desgraças próprias, e ninguém conseguirá se ajudar. As flores, enjoadas, vão murchar os espinhos e serão pura pétala. Os peixes, só esses continuarão nadando indiferentes do mar, desde o sempre comovidos.
Escrito por Valente Martins às 20h09
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