Do Relato Pobre (ensaio arrogante)
Permito-me apenas a prosa do difícil, do inexecutável. Para, portanto, no ensaio de exprimir o simples, reencontrar a falácia da linguagem: o dito inexprimível. (Só pelo complicado se diz a sensação de cor-de-rosa). O não-entendimento cria a ilusão de completude, ainda mais, a impressão do transcendental, da sobre-completude. É ponto pacífico - o significado só é belo quando transborda sobre si mesmo. Faço, por isso, questão do complicadíssimo. Nem que restrito às entrelinhas: o complicadíssimo é meu e necessário. * * * Samira, por exemplo, encontrara no silêncio, coitada, um pequeno tormento cotidiano, irredutível. Dada a clara sensação de que o silêncio permanecia, mesmo que em segundo plano, durante toda a sua fala, ela, pobre, desgarrava-se da obrigação de comunicar-se: Samira perdia o gosto da conversação. Dir-se-ia da vida. Não era a sazão da palavra, concluíra. Não obstante, ela nunca repudiara a possibilidade de uma existência elevada (cogitou o reino puro das idéias mudas). Mas tinha sim, infeliz, na obscuridade de suas frases fracas, empecilho agigantado. Não era a sazão da palavra, lamentara. Descobrisse nessa época a música, Samira primaverava. Não descobriu, reclamou muda, e ninguém ouviu. Samira, uma personagem simples, alegórica, carismática e melancólica. Quase uma estratégia comercial.
Escrito por Valente Martins às 18h25
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